PISANDO nos CALOS

Para ser um bom dançarino de salão é preciso não esquecer os passos. Valsa com Bashir, o filme e a adaptação para os quadrinhos, tratam essencialmente disso: o descompasso de uma guerra e seus traumas que fazem a mente humana acionar uma “trava” para esquecê-las.

O documentário que utiliza o recurso de animação foi o vencedor do Globo de Ouro 2009 de Melhor Filme Estrangeiro e indicado na mesma categoria ao Oscar.

Valsa... remonta o massacre ocorrido nos campos palestinos no começo dos anos 1980 por milícias cristãs, “resultado” do assassinato pela OLP de Bashir Gemayel, líder libanês morto naquela época apenas um mês depois de ter sido eleito presidente do país. Ari Folman, o diretor/roteirista, por mais de vinte anos não conseguia lembrar nada da sua atuação no exército de Israel nesse período até se encontrar com outro companheiro de guerra que tem pesadelos recorrentes a esta passagem. Começa então uma investigação para saber o por quê dele não ter recordações destes momentos.

O filme tem estréia no Brasil agora em abril, mas já passou em alguns festivais de cinema. É uma experiência bem interessante misturar documentário, ficção (que é usual no gênero) e empregar animação. Talvez por este efeito o que nos causa é um certo distanciamento dos fatos e, ao mesmo tempo, nos faz querer transubstanciar o que vemos para o “mundo real”. Com exceção das cenas surreais sobre os delírios ou sonhos dos personagens, que se soltam das limitações documentais.

Uma dança bem conduzida, mas que pisa no seu pé em cada “giro”. Em cada depoimento e em cada lembrança orquestrada conduz para um final impactante e o tal efeito de distanciamento se afasta e nos faz juntar, corpo-a-corpo, com a realidade. Literalmente caímos no meio do salão...

 

A Editora L&PM aproveitou o lançamento do filme por aqui e nos trouxe a adaptação feita pelo próprio realizador, com desenhos de David Polonsky, o diretor de arte. Mas não se engane se pensa que o álbum é uma mera transposição de frames e palavras do longa-metragem. Claro que Polonsky utiliza a suas ilustrações do documentário para narrar a história, mas você percebe que tem detalhes e ângulos totalmente diferentes, além de uma narração bem centrada na linguagem dos quadrinhos. Um bom exemplo de adaptação.

Infelizmente o final perde seu impacto, já que os meios cinematográficos melhor abonam a intenção de Folman.

Uma edição muito bem cuidada, com orelhas e papel couchê de alta gramatura (apesar do preço, R$ 46,00), marca a volta da editora aos lançamentos de quadrinhos autorais inéditos.

Tanto a animação como a HQ não nos faz esquecer obras como Maus, de Art Spiegelman, Persépolis* (que se transformou em animação), de Marjane Satrapi, O Fotógrafo, de Guibert, Lefèvre e Lemercier, e - principalmente - o jornalista Joe Sacco.

Além dos calos de uma dança que continua com a música de tiros e até hoje são pisados...

 

(*) Clique AQUI para ler sobre Persépolis, o filme e a história em quadrinhos.



:::: Escrito por Audaci Junior às 04h40
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