PERSÉPOLIS: revoluções e olhos de tigre

Se não fosse o Oscar, com certeza muitos não saberiam o que é Persépolis, longa-metragem de animação sobre a iraniana Marjane Setrapi, autora da HQ homônima.

A história em quadrinhos, originalmente em 4 volumes, foi relançada recentemente pela Cia. das Letras em um único livro (e muito mais barato, por sinal). A primeira parte é contada sua infância junto com a revolução islâmica, que derrubou o soberano do Irã em 1979. A segunda relata a transição dos extremistas ao poder. A terceira narra a guerra que o Irã travou com o Iraque, além do seu exílio ainda pré-adolescente à Áustria e, por fim, o quarto é a sua volta anos mais tarde.

Marjane conta como o país foi colocado num “retrocesso” sócio-cultural pela ideologia islâmica, onde o conservadorismo e a repressão apenas mudaram de mãos. As mulheres são obrigadas a usarem véus, já que seus cabelos atiçam sexualmente os homens e as meninas têm que estudar em classes separadas dos meninos, abolindo o francês das escolas por perverter os valores da revolução, entre muitas outras sanções. Pior ainda para ela, filha de pais liberais e de esquerda, com parentes e amigos que morreram nos porões das prisões por serem insurgentes, tanto na fase da ditadura como na da revolução.

Seu traço é bem simples e funcional e seu texto é instrutivo por muitas vezes, mas não fica tedioso pelas provações e descobertas da autora, desde sua sexualidade passando pela solidão de ser uma estrangeira em um lugar desconhecido. Por se tratar de uma cultura bem diferente da nossa o didatismo é bem-vindo, já que o que sabemos, geralmente, fica por conta dos noticiários da tevê.

A animação aproveita a maioria das situações ao longo dos livros, apesar de atenuar uma ou outra, talvez para ter um alcance maior entre adolescentes ou não ter muitos problemas com a censura. Produzida de forma simples, com uma animação convencional (e charmosa) em 2D, Persépolis é tão boa de se assistir quanto de ler. Satrapi (junto com Vincent Paronnaud) “melhora” o traço, coloca nuances de cinza (90% da animação é em p&b), elimina personagens para fluir melhor a narrativa e costura tudo com muita habilidade e inteligência, incrementando novas roupagens que não se pode fazer no bico de uma pena. Não é para se impressionar com as técnicas de animação, algo bem corriqueiro nos dias de hoje, mas se comover com a sensibilidade e honestidade que Marjane entrega sua vida (mais no papel do que na tela, na verdade).

Mas não pense que o filme e a HQ só transitam por questões religiosas e políticas. Pela sua criação, Satrapi envereda pela cultura alternativa, pelo punk rock, pelo Marxismo, pelo Niilismo e até Michael Jackson entra na parada. O auge pop da animação é quando ela decide dar uma guinada na vida ao som de “Eyes of the Tiger”, canção-tema de Rocky Balboa.

“Pam!... Pam-pam-pam!”...

(É preciso dizer que é um nocaute na recomendação?)



:::: Escrito por Audaci Junior às 22h32
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