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Idas e vindas no labirinto do minotauro

Algumas críticas sobre Fun Home – uma tragicomédia em família, de Alison Bachdel, mostram-se um tanto exageradas. Dizer que peca por ir e vir demais ao passado ou repetir informações ao longo da obra quadrinística é precipitado. Em outra, aponta que a autora fala em excesso e por isso se perde no último capítulo.

Autobiográfico, Alison conta sua infância, sua descoberta do homossexualismo e, essencialmente, suas impressões acerca do pai. Principalmente quando descobre (depois de sua misteriosa morte) que ele também era homossexual, mas ao contrário dela, enrustido.

Primeiramente não vemos “idas e vindas” ao passado. Apesar de não seguir ordem cronológica, o livro não situa em nenhum momento o “presente”, mas salta de um lado para o outro para analisar seu convívio familiar, sobretudo o paterno, com inteligentes alusões literárias que vão de mitos gregos de Ícaro e Dédalo, passando por Marcel Proust, Oscar Wilde e James Joyce.

Bachdel é bastante honesta, reflexiva e detetivesca nos seus relatos. Na infância, não sabia “quem era” mesmo com uma personalidade forte. Seu pai era perfeccionista, com uma obsessão por restaurar sua antiga casa neogótica e manter as aparências familiares, ficando sempre bem na fotografia social como seus pomposos cômodos e sua vasta biblioteca.

Ao lado dos dois irmãos, Alison cresceu na funerária de seu pai, onde os cachepôs e os objetos de cerimonial fúnebre são usados como brinquedos. O “Fun” do título refere-se abreviadamente à “Funeral” e também à “Casa de Diversões”, aquelas dos parques em que têm salas de espelhos etc. É ai que está um ponto na versão nacional que não concordo quando se traduz por “lar da graça”. Apesar de perceber que o tradutor quis passar a ambivalência de engraçado (para as crianças) e do espiritual (para os mortos).

Seu traço é simples e valorizado com as nuances esverdeadas que entristecem os olhos. Como em Maus, Gen ou Persépolis os desenhos não são o principal atrativo, dando mais atenção à prosa do que a narração gráfica.

A autora não se preocupa em revelar tudo de modo mais impactante. Simplesmente relata os acontecimentos naturalmente, como em uma conversa consigo mesma que já sabe de todas as coisas, mas desconhece encaixá-las. É nesta atmosfera bem particular que respiramos intimamente e partilhamos das suas preferências literárias e conjecturas que se formam em seu encaixe.

Ela não ignora a falta de conhecimento que muitos teriam pelas alusões literárias e dispõe sua narrativa com trechos ou explicações (não didáticas) que não dificultam nenhum leitor a entendê-las. Muito pelo contrário, desperta a curiosidade pelas obras e autores citados, fazendo com que muitos descubram esses livros e tornem Fun Home mais prazeroso de se ler.

Falar em excesso? Idas e vindas ao passado? Perder-se nos pensamentos? Mas não é isso que fazemos naturalmente na nossa vida e em nossa cabeça?!



Escrito por Audaci Junior às 13h31
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