“... a ti o abismo também contempla!”
Atualmente existem vários títulos e diversos gêneros de Histórias em Quadrinhos como nunca se viu. Mesmo assim muitas editoras fazem injustiças com muitos autores, permanecendo inéditos por estes lados. Chris Ware, Adrian Tomine e Charles Burns são exemplos de quadrinhistas “alternativos” estadunidenses que são muito comentados, cultuados e com um número de obras publicadas cada vez maior nas livrarias lá fora e raramente se tem noção de algum trabalho deles por aqui. Um verdadeiro “buraco negro” para os leitores.
Mas para uma agradabilíssima surpresa, a editora Conrad trás o primeiro (de dois) volume de Black Hole, do Charles Burns. Para quem desconhece, o nome de Burns figurou desde 1995 até 2006 em várias categorias das principais premiações norte-americanas por esta HQ, ganhando nada mais que nove Harvey Awards e o Eisner de Melhor Romance Gráfico.
O enredo gira em torno de adolescentes de Seattle nos anos 1970, quando uma doença sexualmente transmissível assola a localidade, com variados diagnósticos de mutação física, sempre se diferenciando nos infectados: são caudas, bocas no pescoço, esfoliação epitelial, bulbos e outros tipos de deformidades das mais variadas.
Longe dos mutantes da Marvel e muito mais próximo da “realidade”, Burns faz uma sensível crítica sobre a DST, o sexo, o preconceito e – sobretudo – a juventude, com todos os seus anseios, inseguranças, decisões, experimentações e até mesmo seus maneirismos. Em Black Hole – Introdução à biologia, não só as drogas fazem seu colapso gravitacional/sensorial, mas todo cinismo, angústia, isolamento e conseqüências sociais também são sugadas para seu centro. Tudo no alvorecer da AIDS e da liberação sexual, muito antes da cidade ser o berço da cultura grunge.
O traço impressiona e garante a atmosfera surreal, melancólica e sombria da história, carregando na arte-final com a predominância do preto. Quase todos os dez anos de publicação fasciculada (no total de 12 números) Burns era indicado como arte-finalista, levando seis prêmios nesta categoria para sua estante. Os desenhos lembram muito seu compatriota (e também “under”) Daniel Clowes, só que com menos tinta no papel. Sua narração é impecável, utilizando técnicas cinematográficas e imagens oníricas que assombram mais pela estranheza provida da realidade empírica do que pelo grotesco das deformidades da doença.
O que resta fazer é esperar paulatinamente pelo último volume e torcer para que as outras editoras brasileiras se interessem por autores já consagrados pela crítica e público do quilate de Charles Burns.
Senão muitos “buracos negros” se formarão na coleção que se estime...
Escrito por Audaci Junior às 22h22
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